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5 Março, 2026 | Entrevistas

Testemunho: Rafael Beirão

Longe da casa, perto da tensão: um sambrasense em Abu Dhabi

Rafael Beirão
Rafael Beirão

Num momento em que as tensões no Médio Oriente voltam a dominar a atualidade internacional, há também portugueses a viver de perto esta realidade. Em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, um jovem natural de São Brás de Alportel acompanha os acontecimentos com atenção, enquanto tenta manter a normalidade no seu dia-a-dia. Entre as notícias que chegam através dos meios de comunicação social e a necessidade de tranquilizar a família e os amigos que ficaram no Algarve, relata como tem sido viver numa região sob alerta e marcada por uma escalada de tensão.

Nesta entrevista, partilha os primeiros momentos de apreensão, a forma como a situação tem evoluído e o impacto que tudo isto tem tido na sua rotina.

Quando começaram a surgir notícias de guerra na região, qual foi o primeiro pensamento que te passou pela cabeça?

Confesso que os primeiros momentos foram de alguma apreensão. Quando começaram a surgir as primeiras notícias e alertas sobre o que se estava a passar na região, houve naturalmente um certo “pânico controlado”. Nos primeiros instantes ainda não havia muita informação clara e todos tentávamos perceber exatamente o que estava a acontecer.

Durante os primeiros dois dias acompanhei com bastante atenção as notícias e as comunicações oficiais da embaixada portuguesa via redes sociais e WhatsApp, tentando perceber qual seria a evolução da situação e que tipo de resposta defensiva os Emirados Árabes Unidos iriam implementar para garantir a segurança do país.

Com o passar dos dias, e à medida que mais informação oficial foi sendo divulgada, foi possível perceber melhor a dimensão real do que estava a acontecer. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos até ao dia de hoje 3/3/26, foram detectados 186 mísseis balísticos, dos quais 172 foram interceptados pelos sistemas de defesa aérea. Treze acabaram por cair no mar e apenas um impactou dentro do território nacional.

Foram também detectados oito mísseis de cruzeiro, todos eles interceptados, e mais de 800 drones, dos quais 755 foram neutralizados pelos sistemas de defesa. Estes números acabam por demonstrar a capacidade defensiva do país e ajudam a colocar a situação em perspetiva.

Infelizmente houve algumas vítimas, três pessoas perderam a vida e várias ficaram feridas, muitas delas devido a destroços das interseções. Mas estes números também mostram a eficácia dos sistemas de defesa e das medidas de segurança implementadas.

À medida que fomos percebendo melhor o contexto e vendo essas medidas a funcionar, a sensação de preocupação inicial acabou por dar lugar a uma maior tranquilidade, e a vida aqui tem continuado relativamente normal com algumas medidas de precaução. Como por exemplo empresas a optar por trabalho remoto, assim como também as aulas na maioria das universidades e escolas. 

Como explicas à tua família, em São Brás, aquilo que estás a viver aí? Eles ficam preocupados?  

Claro que a família se preocupa, é inevitável. Estando eu a viver tão longe, sempre que começam a surgir notícias sobre tensão na região é normal que em São Brás fiquem apreensivos. Por isso, assim que começaram a aparecer as primeiras notícias, a primeira coisa que fiz foi entrar em contacto com a minha família a explicar a situação e a garantir que me encontrava bem.

Nos dias seguintes tentei mantê-los sempre informados sobre o que estava a acontecer. Apesar da tensão regional e de, em alguns momentos, ser possível observar no céu as interseções dos sistemas de defesa aérea, a realidade aqui em Abu Dhabi tem sido bastante tranquila e a vida continua praticamente normal.

Acho que o mais importante é transmitir-lhes essa perspetiva real do dia-a-dia, porque muitas vezes aquilo que chega através das notícias pode parecer muito mais dramático do que aquilo que realmente se vive aqui.

Nestas alturas, a distância pesa mais?

Em momentos como estes a distância acaba por se sentir um pouco mais. Estar a viver do outro lado do mundo faz com que pensemos ainda mais na família e nos amigos que estão em casa e que acompanham tudo pelas notícias.

Felizmente hoje é muito fácil manter contacto, e isso ajuda bastante. Uma mensagem ou uma chamada rápida é suficiente para explicar como as coisas estão realmente a acontecer aqui e para tranquilizar quem está em São Brás.

Mesmo estando longe, sinto sempre o apoio da família e dos amigos, e isso acaba por tornar a distância um pouco mais fácil de lidar.

Tens recebido muitas mensagens de familiares e amigos que estão preocupados?

Sim, recebi imensas mensagens e algumas chamadas de familiares e amigos que ficaram naturalmente preocupados quando começaram a surgir as notícias. Quando estamos longe de casa é normal que as pessoas que gostam de nós querem saber se está tudo bem.

Tenho tentado responder a todos e explicar-lhes como está realmente a situação aqui em Abu Dhabi. Apesar da tensão regional, a realidade no dia-a-dia tem sido bastante tranquila, e isso ajuda muito a tranquilizar quem está desse lado.

A guerra teve algum impacto direto na sua rotina, no trabalho ou na comunidade onde vives?

Felizmente, no dia-a-dia o impacto tem sido muito limitado. É importante também esclarecer que os Emirados não estão em guerra. O que aconteceu faz parte de uma escalada regional de tensões ligadas aos interesses dos Estados Unidos na região. As autoridades locais tomaram medidas de segurança e a situação aqui mantém-se calma e controlada.

Na prática, a rotina aqui em Abu Dhabi tem continuado bastante normal. No trabalho e na comunidade onde vivo as atividades continuam a decorrer como habitualmente, com as pessoas atentas às notícias, mas sem grandes alterações ao quotidiano, apenas com algumas adaptações e precauções extra.

Naturalmente que nos primeiros dias houve mais atenção à informação oficial e às atualizações sobre a situação, mas de forma geral o ambiente tem sido de calma e confiança nas medidas de segurança que estão implementadas no país.  À distância pode parecer uma realidade muito mais tensa do que aquela que realmente se vive aqui em Abu Dhabi.


Isa Vicente

Chefe de Redação ” Jornal O Sambrasense”

Contactos: 919506381