“A natação foi o meu refúgio e continua a ser terapêutica. Chorei muitas vezes dentro de água”

Ana Beatriz Correia tem 28 anos, é auxiliar de educação e carrega no corpo uma diferença com a qual aprendeu a crescer, a lutar e, sobretudo, a não deixar que a definisse. Nascida com agenesia peronial, uma malformação congénita do membro inferior esquerdo, encontrou muito cedo na natação mais do que um desporto. A água tornou-se abrigo, silêncio, força e, em muitos momentos, o único lugar onde podia simplesmente ser ela própria.
Entre treinos exigentes, episódios de bullying, escolhas difíceis e um percurso marcado pela superação, Ana Beatriz fez da natação uma aliada ao longo da vida. Hoje regressou à piscina sem a pressão da competição, apenas pelo prazer e pelo equilíbrio que encontra dentro de água. Ao mesmo tempo, abraçou um novo desafio como diretora da equipa de Boccia da UDRS, onde continua ligada ao desporto adaptado e à vontade de fazer a diferença na vida dos outros.
ENTREVISTA
Como começou a tua ligação à natação?
A minha ligação à natação começou por recomendação dos médicos. Como nasci com esta patologia, os meus pais foram aconselhados a colocar-me num desporto que ajudasse no desenvolvimento muscular e do corpo de forma global. Sendo a natação uma modalidade muito completa, acabou por ser a melhor opção.
Comecei muito cedo. Aos seis meses já frequentava aulas de natação em Faro, porque na altura era um dos poucos locais onde existiam aulas para bebés. Mais tarde, como frequentava a creche em Loulé, passei a nadar nas piscinas de lá.
Por volta dos oito anos, quando estava nas aulas de aperfeiçoamento, houve uma professora que substituiu a minha temporariamente. Na altura, o Louletano estava a iniciar um projeto-piloto de natação adaptada e essa professora achou que eu poderia integrar a equipa. Perguntou-me se tinha interesse, falei com a minha mãe e aceitei.
Nessa altura praticava dois desportos: ginástica acrobática e natação. Mas, a partir do momento em que entrei na natação adaptada, a exigência aumentou bastante. Passei a ter três treinos por semana e tive de optar. Escolhi a natação.
Em relação à tua patologia, é algo congénito ou aconteceu mais tarde?
É congénita. Chama-se agenesia peronial e consiste numa malformação do membro inferior esquerdo. No meu caso, não tenho o perónio e tenho também um encurtamento do fémur.
Os teus pais souberam durante a gravidez ou apenas no nascimento?
Só souberam quando nasci. Foi um choque, porque não apareceu nas ecografias nem houve qualquer indicação durante a gravidez.
Nasci prematura, aos sete meses, e fui imediatamente para a incubadora. Aos seis meses fui submetida a uma cirurgia para alongamento do tendão, porque, no local onde deveria estar o perónio, tenho um tendão. O objetivo foi facilitar o meu andar e evitar o chamado pé equino.
Comecei a utilizar prótese aos sete anos, quando entrei para o primeiro ciclo.
Como foi crescer e conviver com essa diferença?
Na infância não senti grande diferença junto dos meus colegas, porque já andava com eles desde a creche e sempre me trataram bem. A fase mais difícil foi mesmo a pré-adolescência e a adolescência, principalmente no segundo e terceiro ciclos.
É uma idade em que surgem muitas intrigas, comentários, comparações e aquela ideia da “coitadinha”. Foi aí que senti mais dificuldades.
Foi nessa fase que a natação se tornou um refúgio?
Sim, completamente. A natação era o meu refúgio. Eram aquelas duas horas e meia por dia em que eu estava apenas comigo própria. Precisava daquele silêncio.
Foi também por isso que voltei a nadar há cerca de um ano. Para mim é muito terapêutico estar dentro de água e não ouvir mais nada. Sou só eu, o meu corpo e os meus pensamentos.
Na altura do 9.º ano passei por uma fase bastante complicada na escola. Odiava ir às aulas por causa de tudo o que envolvia aquele ambiente. Ao mesmo tempo, treinava todos os dias duas horas e meia e ainda tinha dois dias por semana com treinos bidiários.
Foi também uma altura em que comecei a levar a competição muito a sério e tentava alcançar mínimos para campeonatos europeus. Infelizmente, sempre senti que o Algarve era, e continua a ser, muito esquecido a nível desportivo.
Foi também nessa altura que decidiste mudar para São Brás de Alportel?
Sim. Cheguei a pedir à minha mãe para não continuar na escola em Loulé e para me mudar para São Brás.
Quando vim para cá, praticamente “escondi” toda a minha vida anterior. Ninguém sabia que eu fazia natação, ninguém conhecia o meu percurso. Eu era simplesmente a filha da Cristina.
Em São Brás fui sempre muito bem tratada. A única coisa que me fez alguma confusão inicialmente foi o facto de toda a gente se conhecer. Passei de uma cidade para uma vila e isso foi engraçado, mas também estranho ao início.
E quando entraste para a universidade, a natação continuou a fazer parte da tua vida?
Continuei a treinar, mas com menor frequência. Depois do secundário entrei na universidade e tive de escolher entre a vida profissional e a vida desportiva.
Percebi que não conseguiria fazer da natação uma carreira profissional e optei pela universidade. Ainda assim, continuei a nadar sempre que conseguia, apesar dos exames e das exigências académicas.
Falaste também de bullying. Como lidaste com essa realidade?
Como tinha a natação como refúgio, acabava por camuflar muita coisa e descarregar tudo dentro de água.
Houve muitos treinos em que chorei enquanto nadava e ninguém percebeu. Hoje, olhando para trás, talvez tivesse contado mais cedo à minha mãe o que estava a acontecer, embora ache que, indiretamente, ela sempre percebeu.
Nunca sofri agressões físicas por causa da minha perna. Até porque quem me desse um pontapé ou levasse uma joelhada na prótese também se magoava bastante, e eu nunca fui pessoa de me deixar ficar. Mas verbalmente sofri bastante.
A minha mãe só percebeu realmente a dimensão da situação no 9.º ano, quando tivemos uma reunião com a diretora de turma para explicar o motivo pelo qual eu queria mudar de escola.
Desde o 5.º ano que tive acompanhamento psicológico na escola.
Que conselho darias hoje a jovens que estejam a passar por situações semelhantes?
Que falem mais em casa. Os pais não são “bichos” nem são parvos. Muitas vezes percebem que alguma coisa está mal, mesmo que os filhos não contem diretamente.
E, se estão mal num determinado sítio, seja numa escola ou noutro contexto, não tenham medo de mudar. Às vezes é preciso fazer um “reset” total.
Há crianças e jovens que ficam presos a ambientes muito negativos e acabam por desenvolver situações muito graves, incluindo depressões profundas.
Sentes que ainda existe dificuldade na integração de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?
Sim, sem dúvida. Acho que ainda existe muita falta de pessoas com deficiência integradas no mercado de trabalho, principalmente em profissões que envolvem crianças.
No meu caso, sendo auxiliar de educação, noto que as crianças são muitas vezes muito naturais. O problema surge, por vezes, nos comentários dos adultos.
No meu trabalho dou sempre liberdade aos pais para me perguntarem o que quiserem. Não tenho qualquer problema em explicar a minha situação e, normalmente, depois dessa primeira interação, as próprias crianças deixam de achar estranho.
Na Santa Casa, por exemplo, ao início usava sempre calças para não causar impacto nas crianças. Quando chegou o verão, um dia decidi ir de calções. Algumas colegas até pensavam que eu coxeava por algum desnível.
Quando perceberam que usava prótese começaram a surgir perguntas sobre como conseguia fazer determinadas coisas. Para mim isso é normal e prefiro que perguntem.
Hoje também já se veem muitas mais próteses “nuas”, sem aquele revestimento cosmético que tenta imitar uma perna natural.
Consideras que a sociedade é verdadeiramente inclusiva?
Fala-se muito em inclusão, mas acho que ainda existe uma grande distância entre aquilo que se diz e aquilo que realmente acontece.
Há a ideia de que somos uma sociedade inclusiva, mas muitas plataformas e estruturas ainda não funcionam a 100%.
Até a própria palavra “deficiente” tem uma carga negativa. Muitas pessoas associam imediatamente deficiência a alguém incapaz, dependente ou sem autonomia. E isso está muito longe da realidade de muitas pessoas.
Como surgiu a tua ligação ao Boccia da UDRS?
Entrei quase de surpresa. Quando fui a uma reunião, não sabia bem o que me esperava.
Acabei por aceitar este desafio também por causa do conhecimento que já tinha através da natação adaptada. As associações e algumas das estruturas são semelhantes, por isso já tinha alguma noção do funcionamento.
Tem sido uma experiência muito interessante porque passei a conviver com patologias muito diferentes daquelas que conhecia na natação.
O Boccia pode ser praticado individualmente ou em equipa e isso cria relações muito próprias entre os atletas. Eles desenvolvem uma linguagem e uma cumplicidade entre si que nós, enquanto equipa técnica e dirigentes, também temos de aprender a interpretar.
O que significa para ti acompanhar este projeto?
É muito gratificante. O que mais me faz gostar de estar nestes projetos é poder ajudar pessoas com diferentes patologias e acompanhar o seu desenvolvimento e a ligação que criam entre elas.
Isso faz-me sentir feliz, valorizada e útil perante a sociedade.
Estamos também a crescer a nível algarvio e já começamos a ser vistos noutras zonas do país. Existem várias equipas com muito potencial.
Para muitos atletas, só o facto de participarem numa prova já é motivo de enorme felicidade. Quando ganham, então, ficam eufóricos.
E é importante perceber que, para as famílias, isto não é apenas “ir a um treino”. Existe toda uma logística por trás.
O Boccia é um desporto inclusivo, familiar e que pode ser praticado por pessoas de diferentes idades.
Tens como objetivo voltar a competir na natação adaptada?
Voltei à natação, mas atualmente estou como Master no Louletano e não na natação adaptada. Apesar de alguns treinadores gostarem que voltasse à competição adaptada, neste momento não é um objetivo.
Tive uma vida desportiva muito ativa e exigente, tanto fisicamente como psicologicamente. Agora prefiro aproveitar a natação numa vertente desportiva e terapêutica e, se for necessário, ajudar a equipa de outra forma.
Em relação à tua patologia, há cuidados que tenhas de manter ao longo da vida?
Sim. Por exemplo, se aumentar muito de peso posso vir a ter problemas de coluna com o avançar da idade.
Uma eventual gravidez também poderá provocar alterações hormonais e físicas importantes, e é algo que pode exigir um período de adaptação e recuperação maior.
Gostavas de ser mãe?
Há alguns anos não era uma ideia que me deixasse muito confortável, precisamente pelas transformações físicas que uma gravidez implica. Durante toda a minha vida tive de ter muito cuidado com o peso e isso mexe também com a minha autoestima e com o meu lado psicológico.
Mas sim, gostava de ser mãe.
Uma das coisas que também gostaria de perceber melhor é até que ponto a minha patologia poderá ou não ter alguma componente genética.
Que apoios existem atualmente para quem necessita de próteses?
Existem diferentes possibilidades, embora os processos nem sempre sejam simples.
Há apoio hospitalar, embora possa ser mais demorado; existem também apoios através do IEFP, nomeadamente em situações relacionadas com pessoas empregadas, bem como apoios da Segurança Social e da APPC.
Ainda assim, cada caso é diferente e exige sempre avaliação individual.
