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13 Outubro, 2026 | Entrevistas, Local

Alex Barcia: entre os escombros e as memórias do 11 de Setembro

Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de setembro, Alex Barcia ainda fala daquele dia com emoção. Conhecia as Torres Gémeas como poucos: passava por aqueles edifícios quase diariamente em trabalho. Naquela manhã, tinha terminado o turno poucas horas antes de os aviões atingirem Nova Iorque. Um telefonema obrigou-o a regressar. O cenário que encontrou ficaria gravado para sempre na sua memória.

Alejandro Moreira Barcia, conhecido por Alex Barcia, nasceu na Galiza, em Espanha, e emigrou para Nova Iorque quando tinha apenas nove anos. Foi nos Estados Unidos que cresceu e construiu grande parte da sua vida pessoal e profissional.

Em 2001, Alex conhecia já de perto o voluntariado e a realidade dos bombeiros. O destino, porém, haveria de colocá-lo perante uma das maiores tragédias da história contemporânea não enquanto bombeiro, mas através da sua atividade profissional.

Na altura trabalhava na área da demolição e gestão de resíduos, ligado à Waste Management, empresa que viria a participar nos trabalhos realizados após a queda das Torres Gémeas. Alex desempenhava funções relacionadas com demolição interior e operações no terreno, trabalhando frequentemente na zona do World Trade Center.

Naquela manhã tudo parecia normal. Na noite de 10 para 11 de setembro, Alex cumprira um turno entre a meia-noite e as seis da manhã. Quando terminou o trabalho, saiu de Manhattan e seguiu para casa. Pouco depois, recebeu um telefonema. Pediam-lhe que regressasse imediatamente.

As Torres Gémeas tinham sido atingidas.

A notícia parecia-lhe impossível de acreditar. Apenas algumas horas antes estivera naquela zona e nada fazia prever o que estava prestes a acontecer. As Torres faziam parte da sua rotina profissional. Era precisamente ali que tinha grande parte do seu trabalho.

“Eu tinha acabado de sair dali. Horas antes estava tudo normal. Depois ligaram-me a dizer que tinha de voltar porque tinha acontecido um ataque. Foi um choque. Não conseguimos compreender uma coisa destas até estarmos lá e vermos com os nossos próprios olhos.”- conta Alex

Quando regressou, encontrou uma Nova Iorque que já não reconhecia. O som das sirenes misturava-se com gritos, choro e pedidos de ajuda. Havia pessoas a correr em todas as direções, bombeiros e polícias a avançarem para a zona da catástrofe e famílias desesperadas à procura de notícias.

A dimensão do desastre tornou-se ainda mais evidente à medida que se aproximava.

“Havia pessoas a fugir e outras a tentar ajudar. Via-se medo em toda a gente. Havia muito fumo, pó, destroços por todo o lado e um barulho constante de sirenes. Era uma confusão enorme. Ninguém sabia exatamente o que ainda podia acontecer.”

Alex recorda, nomeadamente, o desespero das pessoas que ficaram presas nos edifícios e que, perante a impossibilidade de escapar às chamas e ao fumo, acabaram por se lançar das janelas.

“São imagens que uma pessoa nunca esquece. Por mais anos que passem, ficam connosco. Víamos coisas que nunca pensámos ver na vida.”

Nos dias e meses que se seguiram, a zona do World Trade Center transformou-se num gigantesco cenário de busca, remoção de escombros e identificação de vítimas.

Militares, bombeiros, polícia de Nova Iorque, agentes federais, equipas cinotécnicas, técnicos especializados e trabalhadores de diferentes empresas passaram a trabalhar lado a lado.

Alex integrou essas operações através da empresa onde trabalhava. O trabalho era físico, pesado e emocionalmente devastador.

“Pensávamos que podíamos não sair dali vivos”

As equipas utilizavam maquinaria para remover toneladas de ferro, betão e outros materiais. Cada pedaço de destroço tinha, contudo, de ser tratado com enorme cuidado. Entre os escombros podiam encontrar-se objetos pessoais, vestígios humanos ou elementos que ajudassem na identificação de uma vítima.

“Tínhamos máquinas para fazer a limpeza e remover o ferro e os escombros, mas não era simplesmente chegar e tirar tudo. Havia um enorme cuidado porque, no meio daquele material, podíamos encontrar restos humanos ou alguma coisa que permitisse identificar uma pessoa.”

Cães especializados percorriam as zonas de trabalho à procura de sinais entre os destroços. Existiam também equipas responsáveis pela recolha e análise de material biológico.

“Os cães ajudavam nas buscas e havia equipas preparadas para recolher tudo o que pudesse servir para identificação. Existiam laboratórios e fazia-se o possível para identificar através do ADN aquilo que era encontrado.”

A missão foi mudando à medida que os dias passavam. Nas primeiras horas ainda existia esperança de encontrar sobreviventes. Com o passar do tempo, essa esperança foi dando lugar a outra responsabilidade igualmente pesada: recuperar e identificar as vítimas para que as famílias pudessem finalmente despedir-se dos seus familiares.

“Chega uma altura em que percebemos que já não estamos apenas à procura de sobreviventes. Estamos a tentar encontrar alguma coisa que permita a uma família saber onde está o pai, o filho, o irmão ou o marido. Queríamos que aquelas famílias pudessem ter uma resposta e fazer um funeral digno.”

Para Alex, essa foi uma das partes mais difíceis de todo o trabalho. Não se tratava apenas de retirar toneladas de escombros. Cada descoberta lembrava aos trabalhadores que, por detrás dos números transmitidos pela televisão, existiam milhares de histórias interrompidas.

À destruição somava-se ainda a incerteza. Os atentados provocaram graves dificuldades nas comunicações, e durante as primeiras horas ninguém sabia verdadeiramente se existiriam novos ataques.

Alex recorda que o medo era constante. Mesmo assim, permaneceu no terreno. E garante que, se não tivesse regressado naquela manhã por motivos profissionais, teria tentado fazê-lo enquanto bombeiro voluntário.

“O destino estava traçado. Se não tivesse ido como trabalhador da empresa, teria procurado ir como bombeiro voluntário. Sentia que tinha de estar lá e ajudar.”

O envolvimento de Alex nas operações prolongou-se durante cerca de oito meses. Foram meses de trabalho intenso, rodeado diariamente pelos sinais físicos e humanos da tragédia.

O cansaço não era apenas físico. Havia o silêncio de quem tinha perdido colegas. A angústia das famílias que aguardavam respostas. Os objetos encontrados entre os escombros. As histórias de quem tinha entrado nos edifícios para salvar outras pessoas e nunca mais regressara.

Um quarto de século depois, admite que continua a recordar aqueles dias com dor. “Podem passar 25 anos, 30 ou 40. Há coisas que não desaparecem. Às vezes basta falar no assunto e voltamos imediatamente àquele lugar, àqueles sons e àquelas pessoas.”

Para Alex Barcia, o 11 de setembro não é apenas uma data histórica nem uma sequência de imagens repetidas todos os anos na televisão. É uma memória vivida.

É o rosto dos amigos que perdeu, dos bombeiros que viu partir para salvar  desconhecidos, dos trabalhadores que permaneceram durante meses entre toneladas de destroços e das famílias que esperaram por uma resposta que, em muitos casos, demorou demasiado tempo a chegar.

Anos mais tarde, depois de se reformar, Alex escolheu São Brás de Alportel para viver. E, apesar de ter deixado para trás a vida profissional nos Estados Unidos, não abandonou algo que sempre o acompanhou: a vontade de servir a comunidade.

Em São Brás de Alportel manteve uma forte ligação ao voluntariado, nomeadamente junto dos Bombeiros Voluntários, tendo chegado a desempenhar funções de vice-presidente da associação. Outro dos papéis marcantes do seu percurso no concelho foi o de Provedor do Residente Estrangeiro de São Brás de Alportel.

Décadas depois de ter atravessado o Atlântico ainda criança e de ter assistido de perto a um dos dias mais negros da história dos Estados Unidos, Alex encontrou no Algarve uma nova casa.

Mas há uma parte de Nova Iorque que nunca ficou para trás.

Ficou na memória dos oito meses passados entre os escombros. Nos amigos que não regressaram a casa. E naquele telefonema, recebido na manhã de 11 de setembro de 2001, que o fez voltar para um lugar que, poucas horas antes, ainda fazia parte de um dia perfeitamente normal.