“O meu marido morreu ao meu lado, no hospital, de mãos dadas. O amor continua presente. Ainda sinto a mão do meu filho e do meu marido comigo. Não foi a partida deles que fez com que deixasse de os amar. É eterno.”

Josefa Pascoal, 79 anos, natural do Alentejo, de Portel, apesar de nunca ter vivido lá, mas sim em Vidigueira e Beja, vem para São Brás de Alportel através de outros familiares, onde constituiu família juntamente com o amor da sua vida, o saudoso Carlos Costa.
Filha de feirantes, a vida de feira nunca a assustou, sempre trabalhou de sol a sol para garantir as melhores condições aos filhos, começou por vender torrão de alicante, mais tarde cassetes e por último, roupa.
Foi mãe muito nova, mas não se arrepende, pois, descobriu um amor inexplicável, teve três filhos, tendo perdido o filho Idálio de apenas 30 anos por motivo de doença, uma dor que carrega no peito como uma ferida aberta incurável.
Apesar das tragédias e perdas irreparáveis, a família nunca perdeu a união, solidificando os seus laços, lutando para ter trabalho, onde prezam sempre pelo asseio e brio, gente humilde e respeitosa, vivem uns para os outros.
Uma vida toda ao lado do seu amor, Carlos Costa, que viria a falecer em 2018, deixando uma saudade profunda em toda a família. Mais de 59 anos de casamento que Josefa diz que ser muito difícil de superar e que as saudades são cada vez maiores. Apesar da dor, o amor é maior que tudo, e continua a crescer, tornando-se um sentimento eterno.
Atualmente, tem 7 netos, 10 bisnetos, é por eles que diz continuar a ser forte, gosta de beber o seu cafezinho todos os dias, canta os Fados do marido para amenizar a saudade, vai cuidando dos bisnetos e acompanhando a vida dos filhos para combater a solidão.
ENTREVISTA
Como é que recorda a sua infância no Alentejo?
Penso que tive uma infância normal para a altura, os pais eram atenciosos, trabalhavam nas feiras e desde cedo que soubemos o que é trabalhar. Tive mais três irmãos. Nunca passámos fome, os meus pais foram sempre trabalhadores, ensinaram-nos a sermos honestos e para nós a palavra vale mais do que o dinheiro. Foi assim que fui criada e foi assim que eduquei os meus filhos.
Era muito jovem quando conheceu o seu marido. Como é que nasce esta história de amor?
É verdade, era uma adolescente ainda, foi através de outros familiares, pois o irmão do meu marido casou com uma irmã minha! E foi assim que nos conhecemos. Ao fim de 6 meses de namoro já estávamos a viver juntos. Eu tinha apenas 15 anos, na altura, o meu pai não aceitou muito bem a ideia. A verdade é que correu bem e ao fim de pouco tempo de me juntar, já estava grávida, tive a minha primeira filha com 16 anos. Ao fim de 2 anos, tive o meu querido filho e quando já estava no Algarve, tive a mais nova, a Nélia.
Quando surge o Ultramar o seu marido é destacado para a guerra. Como é que reagiu?
Foi o meu primeiro desgosto. Roubaram-me o meu marido, fiquei com 2 filhos nos braços, o Idálio tinha só 8 meses. Vivi o tempo todo com medo de perder o meu marido. Fomos comunicando por aerogramas, lindas cartas de amor, sempre com cautela pois não podíamos dizer tudo, mas era a forma de ir combatendo a saudade.
Tive que me mudar para a casa dos meus pais, a minha mãe ficava com os meus filhos e eu ia para o campo trabalhar, tive que ganhar coragem e agarrar-me ao trabalho, era à ceifa, outras vezes, era em lavandarias de residenciais, também trabalhei durante a noite na apanha do grão, fazia vários turnos, foram anos difíceis, mas nunca faltou nada aos meus filhos.
Ao fim de 2 anos e 7 meses o meu marido regressa. Foi uma alegria. A seguir ao nascimento dos meus filhos, este foi o dia mais feliz da minha vida. Eu não o tinha ido levar ao barco, não conseguiríamos suportar a despedida. Sentimos muito a falta um do outro. Após a guerra sofremos um bocado com o stress pós-guerra que o meu marido padeceu.
O seu filho Idálio começou a adoecer logo em criança. O que é que aconteceu?
Os médicos levaram muitos anos a descobrir o que é que ele tinha, mas os sintomas, passavam por febres altas, muitas enterites, que são inflamações no intestino, andou a vida quase toda a antibiótico.
Só aos 11 anos, já o meu marido cá estava, é que tivemos um diagnóstico, de uma doença muito rara, que honestamente nem consigo dizer bem o nome, mas trata-se de algo relacionado com as defesas muito fracas e inflamação dos brônquios.
Apesar da sua saúde frágil foi sempre um rapaz trabalhador, gostava muito do negócio, continuou nas feiras tal como nós, mais tarde, casou e ainda teve um filho, o meu Carlinhos.
Faleceu aos 30 anos com uma broncopneumonia, deixando um filhote de apenas 3 anos.
Como é que se despede eternamente de um filho de apenas 30 anos?
É uma ferida no coração que nada nem ninguém cura. Os médicos dizem-me que é algo incurável. Sofri muito. Nunca mais fui a mesma pessoa. Foi o primeiro amor que perdi e o mais forte. Um filho é sempre um filho. Pedi tanto a Deus para não levar o meu filho. Mas perdi-o.
Como é que se recomeça a vida após tragédia tão grande?
Fiquei muito tempo em casa. Tive sempre medicada. Não queria enfrentar a vida. Só andava no cemitério. Não tinha motivação para o trabalho que na altura era venda de cassetes. As minhas filhas é que foram puxando por mim.
A minha filha Nélia estava grávida de 8 meses quando o irmão faleceu tanto que o meu neto se chama Idálio em homenagem ao tio e isto foi muito difícil para mim. Aceitar o nome do meu filho, ouvir chamar e não ser ele, não foi fácil de encarar. Mas um dia ganhei coragem e pensei, se gosto tanto deste nome, se amava tanto o meu filho, vou ter que o honrar e aceitar. Foi o melhor que fiz. E adoro o meu neto.
Como é que em casal superaram esta dor?
Unimo-nos ainda mais. O meu marido deixou crescer a barba como forma de luto. E eu andei sempre de preto como estou agora. Tentámos voltar ao trabalho várias vezes e não conseguíamos. A nossa família tentou ajudar-nos e puxar-nos para a realidade, mas encarar os clientes e não estar felizes era algo muito custoso. Tivemos que reaprender a viver, mas nunca mais fomos os mesmos.
E como é que descreve este amor tão intenso que viveu?
Não é explicável, o meu marido foi mesmo o amor da minha vida. Claro que a dor de perder um filho é muito diferente, mas a morte do meu marido também me custa muito. Ficou me fazendo muita falta. Éramos muito amigos. Gostávamos de conversar, passear, andar na nossa caravana, estar com a nossa família. Tínhamos as nossas quezílias, mas superámos sempre isso.
Temos sempre a ideia de acabar a nossa vida ao lado do nosso amor e eu perdi o meu marido para o cancro. Cuidei dele até ao fim, procurámos todas as soluções, mas já não havia nada a fazer, a doença já estava em vários órgãos.
O meu marido morreu ao meu lado, cada um na sua cama, no hospital, de mãos dadas. E a última palavra que me disse foi: gosto “muitoooooooooo” de ti. Como é que posso esquecer? Foi a despedida dele.
Sofremos todos muito com a partida dele, as minhas filhas, o meu genro, os meus netos…
Ainda é a matriarca da família apesar das dores que carrega. Como é que se mantém forte?
Nem sempre sou forte, mas por amor aos meus familiares é que vou continuando por cá, para os ajudar na vidinha deles.
Por amor, temos força.


Isa Vicente
