
Uma vida marcada pela depressão e uma mensagem de esperança: falar, procurar ajuda e não enfrentar o sofrimento em silêncio
Aos 82 anos, Rosa Viegas, natural da Ribeira do Alportel, olha para trás e encontra uma vida marcada pelo trabalho, pela emigração, pelas perdas, pelos afetos e por vários episódios de depressão. Uma história dura, mas também um testemunho sobre a importância de reconhecer o sofrimento psicológico e procurar ajuda.
Rosa cresceu com quatro irmãos numa infância simples e exigente. Quando chegou a altura de ir para a escola, foi a única dos irmãos colocada em São Brás de Alportel.
Recorda que fazia o percurso com os sapatos nas mãos e só os calçava quando chegava à vila, depois de atravessar a Ribeira do Alportel.
Mas a escola acabaria por ser uma experiência difícil.
“Eu posso dizer que não tive escola”, conta. Segundo a D. Rosa, a professora enviava-a frequentemente para sua casa, onde fazia tarefas domésticas, cuidava dos filhos, lavava loiça e limpava.
Rosa recorda ainda um episódio de violência física por parte da professora, uma memória que, décadas depois, continua presente.
Apesar de tudo, terminou a quarta classe e começou cedo a trabalhar. Foi numa fábrica de cortiça que conheceu aquele que viria a ser o seu marido e “o primeiro amor” da sua vida. Começaram a namorar quando D. Rosa tinha 16 anos e casaram no ano seguinte.
A vida adulta trouxe também perdas. Durante uma primeira gravidez, Rosa sofreu um aborto espontâneo. Mais tarde, nasceu o tão desejado filho Rui.
A emigração e o início da depressão
Como aconteceu com tantas famílias algarvias, chegou também o tempo da emigração. Rosa partiu para França com o marido, numa época em que procurar melhores condições de vida implicava, muitas vezes, deixar para trás a família e enfrentar condições muito difíceis.
Chegaram a viver sete pessoas no mesmo quarto. D. Rosa começava a trabalhar às seis da manhã e o primeiro emprego foi na limpeza de escadas de serviço.
Foi nesse período que começou a sentir de forma mais intensa os efeitos da depressão.
O afastamento do filho, que teve de regressar a Portugal, tornou-se particularmente doloroso. “Chegava a chorar dia e noite”, recorda.
Ao sofrimento emocional juntava-se o desgaste físico do trabalho e um período de doença que a levou ao internamento hospitalar.
Durante esse tempo, a mãe chegou a levar o filho a França para que D. Rosa o pudesse ver, mas a criança não pôde entrar no hospital. A distância e a impossibilidade de estar com ele agravaram ainda mais o seu estado emocional.
Ao longo dos anos em França, D. Rosa foi procurando tratamento e apoio. O irmão mais novo foi, segundo conta, uma das pessoas que mais esteve ao seu lado.
A família permaneceu cerca de 13 anos em França antes de regressar definitivamente a Portugal.
Uma crise que quase lhe custou a vida
D. Rosa abriu o conhecido Restaurante Rampa, onde trabalhou durante vários anos. Mas a depressão voltaria a manifestar-se de forma grave, num período particularmente difícil da sua vida pessoal.
Conta que um desgosto conjugal a levou a uma crise profunda, culminando numa tentativa de suicídio através da ingestão de um produto tóxico.
Foi encontrada pelo sobrinho, que percebeu o que tinha acontecido, chamou o filho de Rosa e foi acionada assistência médica.
Seguiu-se um internamento de oito dias.
É uma memória que D. Rosa hoje partilha não para dramatizar o passado, mas para alertar para aquilo que uma depressão não tratada pode provocar.
A depressão não é tristeza passageira, fraqueza ou falta de vontade. É uma doença que pode alterar profundamente a forma como uma pessoa pensa, sente e encara a própria vida. Quando se agrava, pode conduzir ao isolamento, ao desespero e à perda de esperança.
Por isso, procurar ajuda atempadamente pode fazer a diferença.
“Não se isolem”
Questionada sobre a forma como tentou tratar as várias depressões ao longo da vida, Rosa fala da importância do acompanhamento psicológico.
“Tenho frequentado psicólogos. A minha infância foi muito dura, acho que começou logo aí a minha fragilidade mental, mais tarde o desgosto de amor e o afastamento do meu filho”, explica.
Hoje, identifica na família uma das suas maiores fontes de força.
“O meu filho, os meus netos e, em especial, a minha bisneta Isa dão-me motivação.”
A quem atravessa momentos de grande sofrimento emocional, Rosa deixa um conselho simples, fruto da sua própria experiência:
“Não se metam na cama, não se isolem. Tenham pessoas com quem conviver e falem sobre os problemas que vos atormentam.”
É precisamente aqui que a saúde mental ganha importância: não guardar tudo para si, reconhecer quando algo não está bem e aceitar apoio.
A depressão pode ser tratada e acompanhada. Psicólogos, médicos, familiares e amigos podem fazer parte dessa rede de apoio. Pedir ajuda não apaga os problemas, mas pode impedir que a pessoa os enfrente completamente sozinha.
A horta onde encontrou memórias e tranquilidade
Hoje, Rosa encontra também equilíbrio nas pequenas rotinas do dia a dia.
Vai à horta e cuida dos gatos, dos cães e dos porcos. A ligação à terra tem um significado especial.
A horta que hoje lhe pertence fazia parte do caminho que percorria em criança entre a Ribeira do Alportel e São Brás.
“Quando eu tinha oito anos, passava por esta horta todos os dias para ir à escola e tirava uma pêra ou uma ameixa para o meu lanche.”
Anos depois, após regressar da emigração, viu o terreno à venda e decidiu comprá-lo. Como forma de preservar essa memória, plantou uma ameixeira e uma pereira.
Aquele espaço tornou-se, de certa forma, um reencontro com a menina que um dia atravessava a ribeira com os sapatos na mão.
A vida voltou a sorrir quando conheceu o atual companheiro, Manuel Rodrigues, homem do Norte, amável e simpático que veio dar uma segunda oportunidade ao amor na vida da D. Rosa e que lhe trouxe muita alegria.
Há 10 anos atrás lançou também o Grupo Folclórico da Velha Guarda, um grupo composto por dançarinos dos 8 aos 80 anos que atuou durante alguns anos em vários pontos do país e até no Canadá! Foi um dos momentos felizes da vida da D. Rosa que conta ter pena de não terem conseguido dar continuidade ao projeto mas devido à idade já era difícil manter a logística do grupo, dos ensaios e das atuações.
A história de Rosa Viegas é feita de tempos difíceis, mas sobretudo da capacidade de continuar.
E deixa uma mensagem especialmente importante numa época em que se fala cada vez mais de saúde mental: a depressão deve ser levada a sério, tratada e acompanhada. Falar pode ser o primeiro passo. Pedir ajuda pode ser decisivo.


