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17 Novembro, 2025 | Reportagens

25 anos a dançar com São Brás de Alportel – O legado de Marta Morais

“A dança aqui é mesmo para todos.”

Espetáculo de Balé
Espetáculo de Balé

Biografia

Marta Morais é licenciada em Dança pela Faculdade de Motricidade Humana da antiga Universidade Técnica de Lisboa e dedica-se ao ensino desta arte há mais de trinta anos. Ao longo de toda a sua carreira, tem procurado concretizar um ideal simples, mas profundo: levar a dança ao maior número possível de crianças, jovens e adultos, promovendo não só o desenvolvimento artístico, mas também o crescimento pessoal através do movimento.

Em 2000, fundou, em colaboração com a Câmara Municipal de São Brás de Alportel, a Escola de Dança Municipal, projeto que continua a coordenar e onde leciona Dança Educativa e Ballet, desde os níveis de iniciação até aos mais avançados. Paralelamente, integra a equipa da Emotion Dance Academy como professora de Ballet e ensina Dança Criativa no Conservatório Regional do Algarve Maria Campina.

Reconhecida pela sua sensibilidade pedagógica e capacidade de inspirar, Marta destaca-se como uma profissional curiosa, dedicada e apaixonada pelo conhecimento. Valoriza o contacto com pessoas que a desafiam e motivam e mantém uma relação próxima com os seus alunos, incentivando-os a desenvolver tanto o talento artístico como as qualidades humanas.

É neste contexto que O Sambrasense conversou com Marta Morais, no momento em que celebra 25 anos à frente da Escola Municipal de Dança — um percurso marcado pela dedicação, pela arte e pelo compromisso com a comunidade.

REPORTAGEM

Chegou a São Brás de Alportel no ano 2000, “diretamente de Lisboa”, como diz com a naturalidade de quem sabe exatamente quando a vida mudou de rumo. Nessa altura, Marta trazia uma bagagem pequena, mas cheia de passos de dança, e uma certeza: queria criar algo ali. Hoje, 25 anos depois, é impossível falar de dança no concelho sem falar dela.

Comecei logo no ano em que cheguei”, recorda. Foi com a colega e amiga Sandra Alves que apresentou o primeiro projeto à autarquia. Antes disso, havia apenas umas aulas de ballet num ginásio privado. “Fizemos uma recolha de interesses pela vila, com questionários… para ver se a dança se adequava à população. E assim surgiu o projeto.

A Câmara aprovou. E nasceu o projeto “Dança para Todos”, pensado para dar acesso à dança a qualquer criança, independentemente da condição económica. “As mensalidades são super acessíveis, nada a ver com os preços praticados noutras escolas.

As primeiras aulas aconteceram numa sala improvisada no pavilhão municipal. “Quase sem alunas nenhumas”, diz, rindo. O início foi humilde, mas hoje o projeto abrange cinco turmas, desde os três anos até às adolescentes que chegam aos 17 ou 18.

A maior dificuldade? “Cativar sempre alunos. Conseguir que venham.” Mas a adesão tem sido constante, ao ponto de este ano ter começado, inesperadamente, com uma turma nova criada do zero: “No primeiro dia não havia ninguém inscrito. Às seis da tarde já tinha três meninas a entrar porta dentro.

Apesar do nome “Dança para Todos”, há um desafio que permanece: os rapazes. “Já tive, mas aqui a mentalidade ainda é fechada”, assume. “Os pequeninos não fazem distinção, mas os pais fazem.

Marta fala das alunas com uma ternura que se confunde com orgulho. Diz que é normal muitas a verem como inspiração, mas conta um detalhe que a diverte:

Eu ando sempre de preto, mas nos desenhos das crianças nunca apareço de preto. Estou sempre de cor-de-rosa, amarelo, azul… Elas veem-me como uma pessoa feliz, brilhante. Nunca sisuda.

Ao longo dos anos, acompanhou meninas dos 3 aos 18. “São 15 anos da vida delas comigo. Claro que custa quando vão embora.” Antes chorava muito. Agora já aceita melhor, embora confesse: “Às vezes ainda fico triste. Mas faz parte.

Duas alunas seguiram carreira: Rita Baptista e Joana Gonçalves. Marta ainda se lembra da conversa com os pais delas: “Fui eu que lhes disse ‘elas têm de sair, aqui já não consigo dar mais’. E foi o melhor que fiz.

Ao falar do poder transformador da dança, a voz de Marta muda. O poder da dança na sua vida tem sido inabalável.

Tenho meninas que entraram na adolescência com muitos problemas psicológicos… A aula era o único sítio onde elas se sentiam seguras.

Conta a história de uma aluna em particular, que mudou drasticamente de corpo e de vida. A dança foi o porto seguro. “Ela encontrava ali o seu espaço, a sua forma de ser ela. E comigo desabafava, porque eu sou uma pessoa neutra na vida dela.

E para Marta, ensinar também é terapia:
Quando estou a dar aulas, tudo passa. É a minha vida, é o que gosto de fazer.

A dança entrou na sua vida quando tinha três anos — exatamente a idade de muitas das suas alunas de hoje. Mas carregar esse sonho não foi fácil.

Os meus pais não aceitaram nada bem. Achavam que a dança era coisa de menina boémia.

Mesmo assim, escolheu a dança quando chegou a altura da universidade. Nunca mais parou. Trabalhou sempre: em São Brás, no conservatório em Faro, em Armação de Pêra. Até na pandemia, quando as aulas pararam, encontrou outro emprego para sobreviver.

Hoje, aos 30 anos de carreira, diz que gostaria de continuar para sempre — mas reconhece as limitações do corpo, inevitáveis na profissão.

Já devia ter feito duas operações aos pés… mas não posso parar de dar aulas. É uma profissão muito precária: se eu parar, não recebo.

Hoje, a escola tem condições que não existiam em 2000: barras, espelhos, sala dedicada. “A Câmara tem sido sempre impecável. Sempre.” E Marta repete, como quem sabe que um projeto assim só se mantém com comunidade:

A dança aqui é mesmo para todos.

Para Marta Morais, a dança é muito mais do que um conjunto de movimentos ritmados. É uma linguagem universal, capaz de despertar emoções, disciplinar o corpo e estimular a criatividade. Quando introduzida na infância, transforma-se numa ferramenta poderosa de desenvolvimento integral.

Segundo a professora, é nas aulas de dança que as crianças aprendem a conhecer o corpo, a coordenar movimentos e a expressar sentimentos através do gesto. Cada passo exige atenção, escuta e superação, promovendo a concentração e a autoconfiança. Através da música e do movimento, descobrem também o sentido de grupo, o respeito pelos outros e a alegria de partilhar metas comuns.

Mas a dança ultrapassa a dimensão física: cultiva valores essenciais. Ensina que o progresso nasce da prática, que o erro faz parte do caminho e que a persistência transforma cada tentativa numa conquista.

Num tempo em que as crianças vivem tão ligadas ao digital, a dança, defende Marta, devolve-lhes o contacto com o presente, com o corpo e com a arte de sentir. É um espaço de liberdade e crescimento, onde cada aluno avança ao seu ritmo e encontra a sua própria expressão.

Na Escola de Dança Municipal de São Brás de Alportel — sublinha — acredita-se que dançar é crescer com graça, força e sensibilidade. É essa harmonia que procuram inspirar em cada aula, passo a passo.


Isa Vicente