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1 Março, 2025 | Opinião

Cristina Farrajota – O nosso Museu foi roubado

Há uma História que se aprende nos livros da escola. Conta a sequência dos grandiosos eventos que, com avanços e recuos, nos trouxeram até aqui depois de milénios decorridos.

Com esta História grande, convive uma outra história feita pela gente anónima no reboliço do quotidiano buscando uma melhor vida para si, para os seus, para a sua comunidade.

Nesta pequena história, mais próxima dos nossos corações e da nossa memória, os afectos, as emoções, os segredos, as partilhas, as heranças, as avenças e desavenças, os preconceitos e os ideais são o condimento para contextualizar cada objecto, testemunho palpável de tempos já passados.

No nosso museu estava a ser contada e vivida esta história tão valiosa. Daí o reconhecimento e notoriedade do seu director dentro e fora da região e do país.

Mas o nosso museu foi abruptamente roubado do seu fio condutor, que fazia a nossa história acontecer. Com a decisão arbitrária da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel de “suspender com vista ao despedimento” o seu director Emanuel Sancho, está suspensa a nossa história que corre o risco de nunca ser contada.

O magnífico acervo, na sua maior parte, doado ou depositado no museu, ao cuidado de Emanuel Sancho, tem uma história que só ele sabe contar. Ele sabe donde vem, quem doou e porquê, como se relaciona com as fotografias, documentos e artigos de jornal, revelando um quotidiano cujo estudo só acrescentaria valor á nossa memória colectiva.

Se Emanuel Sancho tivesse morrido, seria considerada uma tragédia a perda da possibilidade de todas estas conexões. Mas estando ele vivo, desperdiçar todo este capital é, da parte da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel, a atitude de quem não tem consciência do dano que está causando à comunidade e às futuras gerações. Esta atitude birrenta e arrogante é própria de quem julga que não será chamado a prestar contas dos seus actos.

O Emanuel Sancho soube cativar gente interessante e interessada, já aposentada ou não, para em conjunto, levar a cabo investigações e publicações inovadoras que registam bocadinhos da nossa identidade. Outros estão na calha fruto desse labor.

E que dizer dos magníficos catálogos de exposições que, em colaboração com vários autores, revelam as conexões entre o objecto, a fotografia, o desenho, a história que tanto nos ensina?

Como voluntária e Amiga do Museu confesso o meu espanto perante a decisão da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel, de “suspender com vista ao despedimento” o seu director Emanuel Sancho. Qual será o seu verdadeiro intento? A anunciada difamação não faz sentido. Será prepotência e arbitrariedade ou mera ignorância?

A nossa pequena história irá esclarecer e registar em breve.


Cristina Farrajota
Louletana, Voluntária e Amiga do Museu de São Brás