“(…) tive uma vida muito completa, diverti-me e variei muito. Toda a gente gostava de ser rico. A mim basta-me ser um rico moço. Estou bem com a vida.”
Alexandre Caiado é o atual gerente da Leitaria Central, uma casa com história, já dos seus antepassados familiares que é um ícone de São Brás de Alportel. Com uma história de vida irreverente, Alexandre contou-nos os seus maiores desafios, os maiores feitos e defeitos, numa conversa sem tabus. As motas são a sua paixão onde chegou a participar em várias provas nacionais e ser campeão no ano de 2000.

ENTREVISTA
Quem é o Alexandre?
Sou o Alexandre Caiado, tenho 57 anos, nasci em São Brás de Alportel, na zona velha, toda a minha família é sambrasense, o meu pai é o Joaquim de Brito Caiado, natural do Bengado e a minha mãe era a Maria Helena Sousa Coelho. Os meus avós também eram da vila, a Ti Jaquenita e o meu avô era um homem de feitio difícil, o Zé Bento, toda a gente os conhecia! Sou sambrasense de gema!
Como surge o Café Central?
Quando o meu Tio Vítor era vivo era muito empreendedor, tinha fábricas de cortiça e mais projetos, mas um dia, faleceu num acidente de carro nos Vilarinhos e depois dele partir…tudo descambou! Antes de ser o café era a Central de Camionagem, onde se ia buscar as encomendas ao comboio a Faro e depois trazia-se para aqui. E a partir daqui é que se fazia a distribuição para o comércio todo. E depois a minha mãe fez disto o café, estava na moda de “abrir cafés”, e ficou Leitaria Central porque ela queria colocar Café Central, mas como já existia o Ervilha, então pôs Leitaria Central, tinha de ter o nome Central. Nunca estive muito envolvido, vinha para cá ajudar, mas desde que a minha mãe faleceu que agarrei nisto. Eu não sabia fazer mais nada, tinha as motas, mas em Portugal, apenas meia dúzia de pessoas tem futuro com as motas, e o resto da malta paga para correr. Então acabei por ficar no café, e para algumas bocas reacionárias que diziam que não aguentava aqui nem 2 meses, já passaram 8 anos. E espero estar cá mais anos, e enquanto o Joaquim for vivo, não saio daqui.
É o cuidador do seu pai. Como é que consegue gerir o café e ser cuidador?
Eu continuo com o café em parte por causa do meu pai, assim tenho-o aqui perto de mim, quando ele está aqui consigo controlar o que ele faz. Isto emociona-me. Eu estou aqui por ele. O meu pai mora sozinho, mas a apenas 50 metros de mim e eu estou sempre com ele.
O Alexandre tem um percurso no mundo das motas pouco falado. Como surge esta
paixão pelas motas?
Surgiu com a pista da Cortelha, em que fizeram uma pista de motocross, e eu com 19 anos ia para lá ver as corridas. Ganhei o gosto e como tinha um primo que corria em Lisboa, fomos fazer uma prova de enduro, em Cabanas e aí começou o meu percurso. No meu segundo ou terceiro ano do meu contacto com as motas, o meu primo colocou-me a fazer uma corrida do Campeonato Nacional de Enduro e foi aí que apanhei mesmo o vício, e já tinha uma mota de competição.
Com quem é que aprendeu a correr?
Eu aprendi tudo sozinho, sempre arranjei as minhas motas, aprendia em revistas, ia lendo para saber como se fazia. Não havia ninguém em São Brás para me ajudar. Quando comecei em 1987 nem havia peças cá para as motas, tinha que ir a Andorra.
E quando começaram as provas?
Em 1990 comecei a correr, fui a uma prova na Trafaria, os nervos eram tantos que vomitei! Não consegui fazer a prova toda, desisti a meio, pois era a minha primeira prova e não percebia muito. Depois em 1995 já corria Motocross, Enduro e em todo o terreno. Eu gostava muito de enduro, mas as corridas eram mais difíceis e faziam mais estragos na mota e não tinha dinheiro para a arranjar. O Motocross era muito exigente fisicamente, e era muito duro para uma pessoa que não tinha começado muito cedo. Mas cheguei a correr na Pista da Cortelha, na corrida nacional. Inclusive parti uma perna e fui operado, e disseram-me que não podia correr mais. Mas continuei a correr. Em 2000 ganhei o Campeonato Nacional de Todo o Terreno na categoria de Veteranos, tinha 35 anos. Fiz ainda o primeiro lugar dos Veteranos na Corrida TransAlgarve. Corria com uma 125. Nesse mesmo ano, em 2000, ganhei o terceiro lugar na Classe 125 a Nível Nacional. Depois comecei a ficar um bocadinho cansado, era muito dispendioso e deixei as corridas. Mais tarde comecei a ir ver o Dakar, e hoje faço os passeios a Marrocos.
O mundo das motas deixa saudades?
Eu continuo no mundo das motos. Tenho 57 anos e já não corro. Mas ainda ando de mota com a malta, até poder.
Porque é que quase ninguém conhece este seu lado?
Conhecer, conhecem. Acho que conhecem. Pelo menos quem me conhece, sabe que toda a vida andei de mota. Mas talvez não queiram reconhecer isso.
Sente que não reconhecem o seu valor enquanto desportista?
Reconhecer publicamente não. Nunca ninguém me reconheceu por ter ganho isto ou aquilo. Sabem que já ganhei qualquer coisa, mas acho que não estão muito interessados com isso, interessam-se mais com outras coisas.
Incomoda-o?
Não me incomoda nada. Houve alturas que sim, mas há um velho ditado que é: “Quem não deve, não teme”. Eu não devo nada a ninguém, por isso, não tenho a temer, nem quero saber o que pensam de mim.
O que é que acha que os sambrasenses, hoje, pensam de si?
Não sei o que as pessoas pensam de mim. Lá no fundo pensam tudo aquilo que querem pensar, agora outra coisa é aquilo que sou. As pessoas exageram sempre. Quando era mais novo tive uma vida um bocado polémica, mas quer dizer, se eu fazia uma coisa pequena, na boca do povo era enorme. O que eu ouvia falar de mim não se aproximava da realidade. Nunca cheguei onde pensavam que tinha chegado, mas pronto. Na boca dos outros somos aquilo que querem que sejamos. Tão simples quanto isso. Trabalho desde de manhã à noite, cuido do meu velhote. Hoje em dia, não podem falar nada de mim.
Aos 57 anos, sente que é um homem realizado, ou há alguma coisa que ainda gostava de fazer?
Não sei o que lhe diga. Acho que não ficou nada por fazer. Tive uma vida muito completa, diverti-me e variei muito. Toda a gente gostava de ser rico. A mim basta-me ser um rico moço. Estou bem com a vida.
