
Não sei se os Sambrasenses vão ter saudades do presidente, Sr. Vítor Guerreiro, quando este partir para Bruxelas, onde irá integrar, como membro efetivo, o Comité das Regiões.
Certo é que este ainda jovem político tem um percurso impressionante: interessou-se cedo pela política e, através dela, foi saindo do anonimato da pacata vila serrana até aterrar no centro nevrálgico da velha Europa. É obra…
Seria, no entanto, pertinente colocar a questão se esta ascensão se deve ao seu esforço e às competências evidenciadas no trabalho concreto, ou se foi alavancada pela máquina partidária que costuma gratificar aqueles que se adaptam facilmente, não levantam ondas e criam teias de amizades internas que fomentam a subida a postos importantes, bem remunerados.
Quando um político sai de cena local, é pertinente avaliar se deixou obra ou se se limitou a gerir a autarquia com mais ou menos eficácia.
Não sei se o Sr. Presidente deixou obra, a população local está mais capacitada para responder a esta pergunta, pois pode comparar o antes e o depois.
Verifico, contudo, que São Brás continua com graves problemas em áreas essenciais, nomeadamente: habitação, acessibilidades e transportes públicos.
Mesmo que a solução destes problemas não seja da exclusiva competência da câmara, esperava-se que esta mostrasse rasgo, iniciativas tendentes a melhorar a vida das populações.
Mudanças estruturais não têm de facto acontecido: quem trabalha em Faro é obrigado a ter carro, porque os transportes públicos são simbólicos, quase que inexistentes, apesar de se ter inaugurado, com pompa e circunstância, um terminal de autocarros.
Enquanto noutras cidades e vilas já se procura, e consegue, revitalizar os centros históricos, em São Brás o automóvel continua a dominar a paisagem. Para os peões não sobra espaço, quem se aventura a andar a pé, por exemplo na Rua da Praça sujeita-se a ser atropelado.
O presidente sabe desta situação, para a qual já foi alertado, pelo menos há cinco anos, no entanto, nada fez para a solucionar. Provavelmente porque era um homem ligado ao ramo automóvel, ou porque não tem coragem para enfrentar aqueles que se acham no direito de estacionar em qualquer lado, independentemente de ferirem os direitos dos outros, os peões.
Para deixar obra, é essencial que se tenha coragem para enfrentar interesses instalados, é preciso por vezes ser frontal, e não pactuar.
Aquilo que tenho observado em muitas situações, é um abuso de palavreado oco, falado e escrito, que no fundo nada significa.
A atuação do presidente no conflito entre a Santa Casa e o diretor do Museu do Traje é sintomática: numa primeira fase nega qualquer possibilidade de intervir como mediador, numa segunda fase, já mais pressionado pela opinião pública, oferece-se então como mediador. Sabendo-se da estreita relação que mantém com o provedor, ninguém de bom senso acredita que ele, presidente, não estivesse a par do que se passava. Se, como mais tarde refere em comunicado, nutria igual apreço pelas duas partes, então deveria ter atuado preventivamente no sentido de evitar ruturas.
São estas atitudes que desacreditam os políticos e põem em perigo a nossa democracia.
Um político jovem tinha a obrigação moral de dizer as verdades, tratar de assuntos delicados sem pinças, ultrapassar os modelos salazarentos de autoelogios, elogios públicos dos seus parceiros, e não perder tanto tempo a posar para a câmara. Já agora, deveria também ser moderno, europeu, e dar um pequeno contributo para a irradicação do salazarento “Doutor” da nossa sociedade.
Desidério do Ó
S.B. Alportel, 6 de Fevereiro de 2025