
Decorria o final dos anos 80 … época em que Portugal e as suas regiões aproveitavam os fundos comunitários enviados da Europa para apoio a distintos projetos nos diferentes territórios, (especialmente do interior) para o seu desenvolvimento local.
Eu, estagiária em S. Brás, do Curso de Jovens Agentes de Desenvolvimento tive como uma das tarefas de estágio o desempenhar do lugar de Coordenadora do Curso CPC – Conservação do Património Cultural – de Reprodução e Restauro de Traje.
Este curso de formação profissional para 6 formandas apoiado pelo IEFP- Instituo de Emprego e Formação Profissional – tendo como entidade acolhedora do mesmo a Sta Casa da Misericórdia/ Casa da Cultura Anto Bentes foi dinamizado e proposto pelo sr. Prior da Cunha Duarte com a visão de futuro que o mesmo tinha para a criação de um museu do traje bem equipado na região, ao qual não devia faltar uma “Oficina da Restauro” própria e como oferta de trabalho para pessoas da comunidade.
Foi assim que durante 3 anos (mais um do que estes CPC permitiam) num pedido excecional e aceite pelo IEFP, que acompanhei e coordenei na gestão, planificação e contratação de formadores um trabalho de interesse e minucioso, de restauro de trajes e reprodução dos mesmos.
E foi por esta altura também que conheci o discreto Emanuel Sancho que veio um dia para ajudar, a mim e ao prior Cunha, a organizar e levar para a rua um desfile etnográfico de mais de 70 elementos da comunidade sambrasense, para dar a conhecer o museu e o trabalho que este estava a fazer na recolha, conservação e restauro de doações efetuadas por várias pessoas e famílias locais.
E assim, sem sabermos bem como, fomos tendo vários convites para desfile e apresentações dos trajes do Museu… e com mãos de vários voluntários onde se incluía o Emanuel Sancho, dedicado e com atenção aos pormenores e ao melhor tratamento a dar aos trajes usados, quer na sua composição etnográfica quer na descrição dos mesmos e do enquadramento destes nas diferentes “personagens” que representavam; saímos variadíssimas vezes para fora destas paredes e deste município para dar a conhecer S. Brás, um museu e um Algarve de vestes e costumes de Serra e Barrocal que nunca antes tinha sido apresentado .
Tivemos saídas para Vilamoura na praça publica, para o MarinaHotel -Fev. 1990- desfile exclusivo para clientes ali hospedados, para o Teatro Maria Matos em Lisboa, para Faro onde nos incluímos no desfile internacional de folclore do algarve – 1991- numa noite memorável de apresentação de trajes com mais de uma centena de figurantes, incluindo cavaleiros, e S. Brás de Alportel (vila) também pode assistir ao desfile inaugural de abertura da Feira da Serra na sua 1o edição em julho de 1991.
Em todos estes momentos o trabalho de aprendizado e conhecimento do Emanuel Sancho foi- se solidificando e concretizando num individuo genuinamente dedicado e interessado neste património, nesta comunidade, neste projeto de fazer um Museu “Grande”, especial e diferente.
Este foi um trabalho que direi, entre desafiado e desafiando.
Não sei se foram os desfiles e esta recolha que levaram Emanuel a querer estudar mais e desenvolver trabalho aqui; se foi o Emanuel com sua vontade de saber e querer fazer muito que levaram a que o” projeto museu” se desenvolvesse e se pudesse afirmar enquanto tal.
E disso é prova o Prémio de Museólogo do Ano 2021, com o qual foi agraciado pela APOM – Associação Portuguesa de Museologia- João Neto, presidente da APOM, considerou que Emanuel Sancho «tem sido um pilar da defesa da museologia e das boas práticas em São Brás de Alportel».
«Muito muda, todos mudamos, mas o Emanuel tem-se mantido como um rochedo para que o Museu de São Brás seja sempre uma referência no Algarve e uma boa referência na ligação às comunidades»
Nunca conheci na entidade Sta Casa da Misericórdia vontades de outras pessoas que não do prior Cunha Duarte e sr. Emanuel Sancho para concretizar o Projeto MUSEU do Traje de S. Brás, até pelo contrário, muitas vezes os vi serem contrariados em propostas que queriam realizar para dinamizar este propósito.
E, sim posso afirmar tudo isto com propriedade, pois durante estes 3 anos trabalhei numa secretária nas instalações da secretaria da Sta Casa e naquelas salas da Casa da Cultura António Bentes que depois se viriam a transformar em “MUSEU”.
Para além disso, acompanhei estes senhores em várias reuniões para angariação de pedidos de apoio para este projeto; nomeadamente com a Delgada de Cultura do Algarve da altura.
Por isso, por estes dias, observando tudo o que aconteceu… como não ficar triste, desiludida e quiçá irritada e descontente com o desenrolar desta infeliz ação para com o sr. Emanuel Sancho.
Como é que todos os intervenientes, pessoas e indivíduos, e entidades com responsabilidade neste município, não foram capazes de encontrar um caminho de sã diálogo e bom entendimento, antes de se descambar numa situação de embaraço/ injustiça e mal-estar e de não beneficio para todos e cada um, em especial do concelho a quem todos queremos bem!?
Não sendo sambrasense, mas criando aqui raízes e aqui continuando a viver e trabalhar; tendo feito parte do início de todos os processos de desenvolvimento local a que o município de S.Brás de Alportel se propôs, espero ver um desfecho satisfatório e JUSTO nesta situação, para poder vir a falar do engrandecimento desta terra, das suas pessoas e instituições.
A ver vamos …!



Dora Barradas
Agente de Desenvolvimento Local
Mestre em Educação Social