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27 Março, 2025 | Destaque, Entrevistas, Homenagens

Homenagem: Julieta Gago – Um sorriso inesquecível

“A “Gugu”, como a vizinhança carinhosamente lhe chamava (…) dava a sua camisola a quem dela precisasse, mas exigia que fizessem o mesmo por ela.”

Julieta, Gugu para os mais próximos, Lêta para o seu amor, mamã querida para as amadas filhas, nascia no Alentejo, no sítio de Almodôvar, ao dia 19 de dezembro de 1960, a penúltima filha de 7 irmãos, veio com apenas 8 aninhos viver para aquela que foi a sua terra do coração: São Brás de Alportel.

Orgulhosamente alentejana e com sotaque apurado, Julieta, começou a trabalhar ainda adolescente, aos 13 anos, como escriturária numa empresa de transportes de mercadorias (António de Sousa Tomé – Salgadinho).

Mais tarde, trabalhou num minimercado do CCD dos Trabalhadores da Câmara Municipal de S. Brás de Alportel até entrar para as escolas como cozinheira. A cozinha que era a sua grande paixão bem como o contacto com a comunidade escolar.

No desempenho desta profissão, foi escolhida para representar o Município de S. Brás de Alportel num evento gastronómico na localidade de San Vincenzo (Itália), onde confecionou deliciosos pratos de bacalhau que fizeram as delícias de quem teve a sorte de os experimentar. Era uma cozinheira de mão cheia! Esta foi a sua primeira viagem de avião, uma experiência que tanto mereceu viver e conquistou.

No seu primeiro emprego conheceu o homem da sua vida. Depois de alguns anos como colegas de trabalho apaixonaram-se e começaram a namorar. Pouco depois, o seu amor Casimiro foi para tropa e durante dois anos viveram o amor à distância através de bonitas cartas onde amorosamente se tratavam por “Biro” e “Lêta”.

O amor de “Biro” e “Lêta” veio a dar frutos passados alguns anos com o nascimento das suas queridas e amadas filhas: Rute e Bruna. Antes de serem pais cuidaram ainda de um sobrinho muito amado que criaram como um filho.

Ao dia 2 de fevereiro de 2023, aos 62 anos, o sorriso de Julieta partiu… deixando consternada toda a vila de S. Brás de Alportel. O seu profissionalismo, a sua energia e boa disposição, o seu sorriso… ficarão para sempre na memória de todos quantos tiveram o privilégio de trabalhar ao seu lado.

Cidadã solidária, de coração altruísta e generoso… deixará, para sempre, eterna saudade na comunidade.

Foi neste âmbito de amor que o Jornal O Sambrasense prestou esta homenagem falando diretamente com os grandes amores da sua vida e que de forma única e emocionada deixaram o seu tributo à sua eterna “mamã”.

ENTREVISTA

Como é que descrevem a vossa mãe para quem não a conheceu?

Bruna: A minha Mãe era uma pessoa meiga, simpática, amiga, muito fácil de lidar, para ela estava sempre tudo bem. A empatia que tinha com todos era notável, uma pessoa que estava sempre disposta a ajudar em tudo e a todos os que lhe pedissem auxílio.

Rute: Adorava os mais pequenos e, no sítio onde viveu a maior parte da sua vida (no Bairro Social), acompanhou o crescimento de muitas crianças, mimou-as e adoçou-lhes a boca e a alma ao longo dos anos. A “Gugu”, como a vizinhança carinhosamente lhe chamava, era reta e exigente no seu trabalho e nas relações humanas. Dava a sua camisola a quem dela precisasse, mas exigia que fizessem o mesmo por ela. Quando assim não era, era-lhe difícil esquecer.

Era uma pessoa positiva e que não se deixava abalar pelas circunstâncias menos boas. Foi uma lutadora até ao fim!

Era alegre, divertida, gostava de uma boa piada, adorava rir e tinha uma gargalhada contagiante que continua a ecoar nas nossas memórias.

Uma trabalhadora nata, trabalhou uma vida inteira, sempre dedicada a tudo o que jogava as mãos. Faltou-lhe gozar mais a vida, mimar-se mais, dedicar-se mais a si própria… E bem o merecia!

Nos últimos anos, a saúde pregou-lhe uma partida e fê-la perder um pouco do seu brilho natural; começou a sentir-se cansada e desanimada, mas sem nunca perder a sua simpatia, sensibilidade e amor ao próximo.

E como Mãe como é que a descrevem?

R: Foi uma MÃE carinhosa e compreensiva. Sempre disponível para ajudar em tudo o que precisássemos (e mesmo no que não precisávamos, mas que ela achava que sim!)

Era uma excelente gestora familiar. Apesar do rendimento familiar nunca ter sido alto, nunca nada nos faltou! Ensinou-nos a dar valor a tudo o que tivemos, graças ao esforço do seu trabalho e do nosso pai. Defendia a família com unhas e dentes.

Qual é que eram algumas das suas paixões?

B: Ela era muito apaixonada pela vida em si, mas gostava mesmo era de ver mesas cheias a deliciarem–se com os seus cozinhados e sobremesas. Gostava de passeios ao ar livre (convívios piqueniques) e de praia. O que mais gostava era mesmo ver os seus bem e felizes.

R: A sua maior paixão eram as netas. Era doida pelas netas, deu-lhes todos os mimos que pôde e mais alguns!!!

Tinha o dom de cozinhar! Cozinhava com amor, adorava cozinhar para os outros – para as crianças e profissionais das escolas onde trabalhou, e mais ainda para a família. Amava receber a família em sua casa. E que saudades temos das belas refeições em família…

Era adepta ferrenha do Benfica. Adorava futebol e percebia muito do assunto.

O sorriso era algo que a caracterizava. Como é que a D. Julieta encarava a vida?

B: Nunca foi uma pessoa de muitos luxos ou luxos nenhuns, sempre foi humilde, de bem com a vida e sem muitas ambições, pois só tinha aquilo que lhe fosse possível ter.

Quais foram as maiores lições que aprenderam com a sua ausência?

B: O que eu aprendi com a sua ausência…quando somos crianças tomamos as coisas por garantidas para uma vida inteira, mas nada é para sempre. Tive de aprender a viver novamente, ainda estou a aprender a viver sem ela.

R: As maiores lições que aprendemos com a sua ausência:

– O bem que fazemos é-nos retribuído em amor na hora da partida.

– A vida é demasiado breve para nos chatearmos com quem amamos. De um momento para o outro, as pessoas que amamos evaporam-se e fica o sentimento “o que podia ter feito e não fiz?”. O mais importante é o tempo de qualidade que partilhamos com quem amamos, o resto é paisagem!

Como é que S. Brás reagiu à partida da vossa Mãe?

B: Penso que com imensa tristeza, pela dimensão do funeral, era uma pessoa muito querida e acarinhada por todos. Os anos passam e ela continua a ser falada e recordada por muitos que lhe queriam bem. As saudades entre a família são muitas. Para mim foi como se me tivessem arrancado metade do coração.

R: S. Brás chorou a partida da nossa Mãe. Foi emocionante ver a quantidade de pessoas que quiseram estar presentes no último adeus, que mostraram o seu carinho e admiração pela nossa Mãe.

Foi uma morte prematura e ninguém esperava este desfecho. Estávamos todos em choque. Mas uma pessoa como a nossa Mãe nunca morre! O amor que sentimos pela nossa MAMÃ faz com que ela continue bem viva em NÓS! Por mais que falemos sobre ela, não há palavras que façam justiça à sua passagem por este mundo!


Isa Vicente