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17 Junho, 2022 | Entrevistas

Jovem Empreendedor: Ana Banon

Ana Banon e o regresso ao mundo das artes

“Voltei a pintar após a morte do meu pai, ele foi a minha grande inspiração.”

Ana Banon, 41 anos, natural de Lisboa, mas a viver em São Brás de Alportel desde os 17, construiu aqui a sua família e mais recentemente inaugurou o projeto da sua vida.

A paixão pelo desenho e pela pintura foi herdado pelo pai que era artista plástico, foi também o seu pai, a sua maior inspiração para voltar a desenhar, pois Ana esteve desde 2007 a 2020 sem pintar, voltando após a morte do seu mestre.

Há três meses abriu o seu atelier em São Brás de Alportel, um espaço inicialmente dedicado apenas à preparação dos trabalhos de Ana, mas que, futuramente, poderá ser também reconhecido como um espaço comercial onde poderá adquirir a sua obra.

Ana Banon

ENTREVISTA

– O que levou a tua família a mudar-se para o Algarve?

Nós somos evangélicos e o meu pai na altura era pastor e então surgiu a oportunidade de vir abrir uma igreja à qual nós pertencíamos, mais para os lados da Fuseta. Por acaso, nunca andei na escola aqui em São Brás, fiquei sempre por Faro, mas a maior parte dos meus amigos é de cá, aqui casei e criei os meus filhos.

– Como surgiu a paixão pelo desenho?

Na verdade, sempre esteve ligada a mim, o meu pai era artista plástico. Com 12 anos comecei a ter as primeiras aulas de desenho, o meu pai dava aulas de pintura e de desenho. Aos 14 anos comecei a imitá-lo, não fazia muito a ideia do que estava para ali a fazer porque ele usava tintas de óleo, que não são solúveis com água. Comecei a pedir material, passei a pintar melhor e a desenhar, quando cheguei ao 10º ano e que fui para Artes.

Nunca pintei profissionalmente até agora. A última vez que eu pintei foi em 2007, fiz um quadro para um casal amigo que se casava na altura e nunca mais peguei num pincel, até 2020.

O meu pai após sua a doença, a única coisa que não perdeu foi a pintura e o desenho, ele conseguia fazer a junção da cor, não ficava abstrato. O tumor afetou principalmente a motricidade fina.

Um dia que fui vê-lo ao centro onde ele estava em Lisboa, a primeira coisa que me mostra foi um dossier cheio de desenhos.

Foi ele que voltou a despoletar em mim o bichinho do desenho. Tinha saudades de pintar e o meu pai faleceu a 31 de janeiro e a partir daí, aos poucos lá fui voltando a pintar, entretanto, o ano passado iniciei um curso que é equivalente a um mestrado só em pintura. Isso foi um impulso.

Até 2007 já tinha feito exposições em Portugal e Espanha. Fiquei muito tempo parada. Tive que voltar a aprender a pintar e a desenhar.

– Qual é que consideras ser o teu estilo de trabalho?

Neste momento é no abstrato com figurativo, mas na verdade eu não te consigo dizer se isso é efetivamente a minha voz. Paisagem não é aquilo que me faz sentir eu, que me faz sentir viva.

Nunca na minha vida tinha conseguido desenhar retratos e era só o que eu queria e agora finalmente estou a chegar lá. Quando comecei em 2020, qualquer tipo de material chegava, inclusive material do chinês, pois era para experimentar. Mas neste momento, não, todo o material que utilizo é profissional. Aos poucos estou a descobrir o que eu sou na arte, é impossível traduzir em palavras, mas é o abstrato com figurativo e acima de tudo os retratos, desde pequena que sou apaixonada pela figura feminina. Não sei se isso terá a ver com a influência do meu pai, ele era um apaixonado pela figura feminina, tal como eu, e neste momento muito mais pela expressão facial, pelos retratos em si.

E finalmente, sim começo-me a sentir eu, não sei se fico por aqui.

– Tu voltaste a pintar no meio de uma pandemia. Como foi esse desafio?

No início de fevereiro de 2020, comecei a pintar e em março começa a pandemia, tive um apoio incondicional de todos lá em casa, eu tinha tudo montado na minha sala. Eu às vezes dizia, tenho falta de material, mas é uma despesa e o meu marido sempre me disse, não é uma despesa é um investimento. Eu precisava de desenvolver e não conseguia, pois sou muito influenciada pelo espaço que me rodeia, e em casa sentia me sufocada, não me conseguia focar.

Então comecei à procura de um espaço, mas não havia nada e desisti. Entretanto o meu irmão passou aqui à porta e disse-me, “mana há aqui um espaço para alugar, não sei o preço, mas sei o espaço”. Falava com Deus, e dizia olha Senhor eu preciso de um espaço não precisa ser maior, só preciso de um espaço para meter um meu cavalete, a secretário, o meu material, uma casa de banho e uma janela. Quando vim ver o espaço, a senhora disse, olhe é pequenino, mas é o que está à vista, e eu olhe é perfeito é mesmo isto que eu preciso, tem uma boa luz.

– Há quanto tempo abriste o teu atelier?

Há 3 meses. Ainda não tenho tido muito feedback, há muitas pessoas que já sabem que eu estou aqui, mas apesar disto ser uma loja eu não estou a fazer muita publicidade, eu não quis um espaço para ser um espaço comercial, eu precisava de um lugar para sair de casa para me poder focar e obrigar a ter um horário de trabalho mais fixo.

– Quais são os projetos para o futuro?

O maior sonho é complicado, eu adorava ter uma escola de arte mesmo só ligado à pintura. Em Portugal é muito difícil, porque quem está ligado à pintura tem de estar quase obrigatoriamente ligado a outros ramos e outras vertentes, porque a pintura ainda não é muito vista em Portugal.

A curto prazo é terminar o curso que está quase no fim e dar a conhecer o meu nome em termos artísticos, como é óbvio.

– Quem foi a principal influência?

A nível familiar foi o meu pai, David Banon, sem ele saber foi um impulso para eu voltar a esta arte. A nível artístico foi o Salvador Dalí, sempre foi o meu artista predileto.

Hoje em dia tenho mais conhecimento, mas foi sem dúvida graças a Salvador Dalí que eu fui para Artes, era por causa dele que eu imaginava os meus desenhos muito distorcidos, sendo que hoje não tem nada a ver.

A história que ele conta num só quadro foi o que sempre me motivou na arte, ele foi sem dúvida um grande impulsionador. 

Ana Banon